Numa casa vivia um homem, um homem sem vida, sem amor, sem alegria. Um homem que ninguém conhecia, ele nunca saia de casa. Não sabia porquê, mas não comia, nunca tinha fome, vivia apático sentado na sua poltrona em frente à televisão há muito destruída. Não se mexia, ficava ali, sentado, o dia todo a olhar para a televisão, não pestanejava e quase não respirava, era magro, muito magro e a sua barba crescera apenas ao ponto de arranhar quem quisesse beijar aquela pele encardida, pelos anos estagnada.
Vestia a mesma roupa desde que se sentara, umas calças velhas de ganga, agora cheias do pó que penetra por todas as frestas de uma casa. O seu tronco imundo era coberto por uma camisa de alças outrora branca, hoje amarelada. Estava descalço, e dos seus esguios pés saíam unhas gigantes amareladas cor de míjo. E ali estava ele estagnado a olhar para a televisão cujo vidro à muito se partira. Aquele antro era como qualquer outra divisão da casa, suja, e pintada pelo tempo de um monocromático cinzento. As janelas não permitiam observar nada, a sujidade deixava apenas alguns raios de sol opacos entrarem durante o dia.
As aranhas há muito haviam tornado a casa em um paraíso aracnídeo. Era uma casa de vermes e insectos de toda a espécie que deixavam esporadicamente o seu rasto na sujidade, ou por vezes até contribuíam para a mesma. No ar imperava o silêncio, entrecortado ocasionalmente pelo estalar da madeira, pelos barulhinhos que alguns insectos faziam ou pelos ecos dos sons exteriores. Nos restantes e largos momentos a casa era muda. E na poltrona estava o homem, apodrecido pela imobilidade que o tempo e o destino lhe conferiram. Mas ele não estava morto, no seu corpo, nos seus vasos sanguíneos ainda corria sangue, um sangue bombeado por um coração que parece não querer deixá-lo morrer.
E ali estava ele há anos, talvez décadas, não sei precisar o tempo, serenamente a olhar para a televisão. Esperava lentamente pela morte, mas essa não o queria levar e ele continuava a esperar. Quanto tempo mais iria ele esperar? Ele não sabia, estava apenas à espera. A casa permanecia naquele bairro de casas pequenas, seria em outros tempos a melhor casa do bairro, mas agora era apenas uma ruína que todos evitavam pelo aspecto grotesco daquela construção, sem fazer ideia de ali existir um homem sentado a frente a uma televisão.
Mas um dia tudo parecia que ia mudar, os ecos de sons no exterior eram constantes pelos corredores sombrios nesse dia. Um estrondo, o homem velho e chupado pelo tempo ouviu um estrondo, e numa questão de segundos deu-se uma revolução em todos os aspectos daquela sala. Uma gigantesca bola de chumbo trespassou a parede à sua direita, cortou o ar à muito estagnado, esmigalhou a televisão à muito avariada, e destruiu a parede à esquerda do homem que olhava para onde estava antes a televisão. A luz, verdadeiramente brilhante do sol, penetrou pelas duas feridas agora existentes naquela casa. O ar estagnado estava agora vivo, cheio de partículas de pó movimentadas pelo ar exterior. Os ecos passaram a ser som, sons de homens e máquinas...
O homem permaneceu apático. Ouviu-se um novo estrondo e a parede em frente do homem desmoronou-se. Pela primeira vez em muitos anos o homem pestanejou, a luz do dia irrompeu pelas ruínas da antiga mansão. A poeira dissipou-se e o homem viu o azul do céu, o verde dos jardins, o branco, o amarelo e o preto de pessoas, muitas pessoas. Viu as cores com que todos se vestiam, os capacetes amarelos de um grupo de homens perto de uma máquina que suspendia dela a bola de chumbo. Um grupo de mirones olhava com curiosidade o interior exposto daquele lar perdido. Mais atrás um grupo de crianças brincava, rindo e correndo, inocentemente perdidas na sua juventude.
Aqueles olhos daquele homem voltaram a permitir àquele ser amorfo ver coisas que ele se esquecera de ver. O homem viu movimento! Viu vida! Viu alegria! Viu o amor! Mas acima de tudo, viu tudo aquilo que existia fora daquelas quatro paredes agora destruídas. Por breves instantes, sentiu a maravilha de se estar vivo. Pela primeira vez em muito tempo surgiu um sorriso naquele rosto encardido e podre. Um sorriso de inocente felicidade, algo que ele perdera e pensara nunca mais voltar a encontrar. O homem levantou-se, queria abraçar a vida! Mas ao fazê-lo, o corpo inerte cedeu, cederam os braços e as pernas. Cedeu o coração. O homem estagnada mente imortal, morreu. Os mirones que assistiam à demolição da casa, assustaram-se com a visão daquele homem putrefacto, soltaram um esgar em uníssono quando o virão tentar levantar-se e certamente não esconderam um certo alivio quando o virão cair por terra.
O homem não teve um funeral. Ninguém o conhecia, enterraram-no num cantinho do cemitério local. Com uma tábua de madeira a dizer "Desconhecido". Quem era o homem? Porquê estava ali sentado, isolado na sua solidão? São perguntas que ficaram para sempre por responder.
Sem comentários:
Enviar um comentário