sábado, 11 de outubro de 2008

Chuva

Estaciono o carro, os pneus enlameados do caminho de terra. Chuvisca, nesta noite. Mais uma noite, aqui junto a ti, guardião de outros tempos, agora em ruinas. És testemunho de muita coisa nestas centenas de anos que aqui estás. Guerra, paz, dor, sofrimento, amor...

Quantas vidas passaram por ti? Não sei. Apenas sei que agora sou eu que passo pela tua história também. Aqui estou eu, mais uma vez, junto a ti, torre. Recordando aqui, junto ás tuas paredes em ruina.

A noite não é iluminada, pois uma grande nuvem cobre todo o céu. Dizem que vem ai uma grande tempestade. Vejo ao longe os relampagos insessantes que mostram essa tempestade. Sinto o vento a aumentar de intensidade, a chuva começa a cair mais fortemente e os trovões estão mais proximos. Sinto o carro a abanar com a força da tempestade. Mas só penso em ti...

Penso que te queria aqui ao meu lado a sentir esta tempestade comigo. Mas não estás comigo. Sinto a tua falta profundamente, recordo-te, recordo os melhores momentos da minha vida...

Recordo as tempestades que passei contigo nos meus braços. Doce carinho partilhado enquanto o mundo rebentava no exterior do automóvel, aqui mesmo neste lugar. Os nossos dias na ilha, termos de ir de mar taxi e tu bem junto de mim nessa viagem pela ria. O carinho partilhado enquanto cozinhavamos juntos. Ir á praia no Inverno, ter a praia só para nós os dois. A nossa viagem pelo interior alentejano na primavera. A serra, o rio, os campos de flores, a cascata, Monsaraz ao fim do dia, a noite no mosteiro e o banho. Recordo aquela noite amena de verão a jantar no Chapitô, e a volta rapida pelo Bairro Alto. A noite de santos. Aquela madrugada de Julho em que partia para Lisboa. O abraço de despedida que te dei, um abraço que não queria que acabasse. Acordar a teu lado, sentir o teu corpo bem junto ao meu, ver o teu rosto de linhas graciosas, como de uma elfa dos livros de fantasia. Os teus olhos da mais pura cor do céu, o teu sorriso. Os abraços, os beijos, os carinhos partilhados. Tudo.

Tudo isso desapareceu. Já não tenho a quem dar o meu amor. Estou sozinho nesta noite tempestuosa, completamente sozinho na escuridão. Sinto-me completamente vazio, como um cartucho de bala depois de disparado. Não me queres porque pensas em outro, por isso estou completamente vazio. Sinto-me a glorificação do nada. Saio do carro no meio da tempestade, sou acossado pelo vento e agredido pelas grossas gotas de água. Queria beijar-te agora mesmo, no meio deste cataclismo natural. Mas apenas beijo a chuva insipida. E o vento não me fala de ti...


"Durante toda a noite, caminhei
Molhado pela chuva e p’lo desejo
Durante toda a noite quis um beijo
E só a chuva insípida beijei

Durante toda a noite procurei
Mas se eu gritei por ti gritei ao vento
Durante toda a noite não te vejo
E só a ti em sonhos te toquei


Até ser dia a chuva cai
E o vento nunca me falou de ti

Durante toda a noite procurei
Mas se eu gritei por ti gritei ao vento
Durante toda a noite não te vejo
E só a ti em sonhos te toquei


Até ser dia a chuva cai
E o vento nunca me falou de ti"

http://www.iris.pt/

1 comentário:

Anónimo disse...

Consegues pôr-nos a imaginar tudo o que ai está escrito...
És fantastico a transmitir essas sensações!