A mãe serviu os pratos dos dois rapazes e da rapariga, dividindo aquele caldo de legumes que se chamaria de sopa irmamente pelos trÊs deixando-a sem nada para o jantar. As suas mãos com cicatrizes de queimaduras, marcas de uma vida na cozinha, amarrotando-lhe a pele do mesmo modo que a sua roupa, velha e encardida. No entanto, esta roupa engelhada desta mulher dedicada aos filhos insere-se perfeitamente na cozinha onde passa todos os dias. Sem uma única janela e apenas com um candeeiro que ilumina toda a divisão. O papel de parede há muito saiu de moda e desaparece em algumas partes onde a parede se vai desfazendo. As crianças estão vestidas cada uma com uma cor diferente. Mas não se nota. Pois o encardido das roupas e a fraca iluminação dão-lhes a todas um tom acinzentado. Devoram aquela "sopa" como se fosse a ultima refeição, ou a primeira boa refeição em muito tempo, o que por acaso até é.
Uma chave entra na fechadura, a mulher olha para a porta de casa o medo no seu olhar. As crianças param de comer, olhando umas para as outras. o caldo inerte por entre a colher. A porta abre-se. Surge um homem. A mulher não tira os olhos dele, os trÊs filhos viram-se lentamente para ele. Mas o homem não olha para eles. Fecha a porta com violência e dirige-se para as escadas, cada passo esmaga o silencio que se sentia na casa. A menina treme deixando escapar uma lágrima. Os passos sobem a escada. A mãe olha para o tecto ouvindo a direcção dos passos. As crianças tambem olham.
Entrou no quarto do casal, abriu uma gaveta, e depis fechou-a, avançou, e pelo som das molas, sentou-se na cama. Um estoiro enorme soou por um breve instante. OS três filhos do casal saltaram de susto, a menina começou a chorar. Algo pesado caiu no chão num estrondo.
A mulher correu escada acima, um misto de pânico, incerteza e medo a guiarem-na pelas escadas de madeira. Abriu a porta do quarto, o marido jazia numa poça de sangue que derramava de um orificio na sua cabeça. Na sua mão, um revolver.
"Everything that has a beginning, has an end"
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