Há algum tempo atrás, num outro Setembro, eu e a Alexandra partimos de autocarro. Apenas sabiamos que iamos para o Mega-Conserto que se ia desenrolar dai a três dias. Com saco-cama ás costas e dispostos a passar 3 dias acampados ao lado de um menir tombado se fosse preciso, partimos, primeiro em direcção a Rio de Moinhos onde nos iamos encontrar com o professor Manuel Calado, que nos levaria ao Barrocal ainda antes do mega acontecimento.
Uma viagem totalmente imprevisível desde o início, desde a viagem de autocarro. Onde uma senhora esqueceu-se da paragem e insistiu para que o motorista parasse o autocarro imediatamente e a deixasse sair, isto no meio da auto-estrada. Como é óbvio o motorista não parou, e a senhora teve que sair na paragem seguinte para grande descontentamento da mesma! Paragem essa o suficiente para ir á casa de banho, no entanto, tempo suficiente para um ladrão entrar no autocarro, pois já o autocarro em movimento, o rapaz que ia atrás de nós descobre que lhe desapareceu a carteira e o leitor de mp3s. Ninguem viu nada, nem cheirou nada, e o pobre do rapaz completamente "ás aranhas" sem os seus pertences!
Chegámos, fomos recebido pelo professor de braços abertos. E lá fomos para Rio de Moinhos, sem antes passarmos pela escavação do professor. Convidou-nos a escavar, mas sabia perfeitamente que eu não estava em grandes condições de tais façanhas, pois há apenas 3 meses fora operado ao joelho direito. Era visivel no seu rosto que o professor não se sentia á vontade em irmos sozinhos para um monte alentejano, tal e qual uma aldeia abandonada. O almoço foi no único estabelecimento de Rio de Moinhos, uma taberna onde os velhotes jogavam e bebiam. Ali a um canto, enfardámos um belo bitoque daqueles á moda antiga, que se paga pouco mas extremamente bem servido.
Fomos então para o Redondo onde ia haver nessa tarde uma apresentação de Rui Mataloto sobre as suas escavações na vila. Ai reencontrámos o Ivo, o Mário e o Duarte, que não os viamos desde a Páscoa, altura em que escavámos no Barrocal. Contámos ao Duarte a nossa decisão de irmos para o Barrocal ao que ele foi determinante! Não nos largou enquanto não aceitámos ir passar a noite a casa dele em Évora e assim encontrarmo-nos com a Sara e a Filipa e partirmos os cinco para o Barrocal no dia seguinte. E assim ficou decidido. No entanto o dia não terminava ai. Fomos convidados por Rui Mataloto para um jantar na sua casa. Carne assada, pãozinho alentejano e muita cerveja e vinho. Tarde fomos para Évora onde ficámos num quarto no sotão para hóspedes.
O dia seguinte amanheceu chovoso, fomos buscar as duas moçoilas á paragem dos autocarros e partimos para o Barrocal. Abastecemo-nos no em Reguengos de Monsaraz e lá fomos passar a noite no monte abandonado. Imaginem uma casa á antiga, com um corredor central, e com inumeras portas para várias divisões. Alguns quartos restaurados, outros ainda abandonados desde há muito. Registos do passado amontoam-se num dos quartos. Registos de inventário da década de 40 e 50, junto com materiais da época. Numa mesa coberto de pó está um Guia Michelin das Estradas de Portugal, o boneco da Michelin é muito diferente, veste um smoking, fuma charuto, tem um óculo e uma cartola, roupas da época deste guia, pois a data na capa indica ser de 1908. Dentro ilustrações do mesmo boneco da Michelin num calhambeque a deixar uma nuvem de pó atrás, ao lado um mapa de Portugal, só com uma estrada de macadame a ligar Lisboa e Porto. O resto são referências entre o local de partida e o destino bem como o estado da estrada, sendo quase todos de terra batida. Ao fundo do corredor uma divisão inteira foi transformada em casa de banho. As aranhas são habitantes frequentes desta casa, e todos os colchões têm um buraco ruido pelos ratos, que se deviam acomodar dentro deles antes de nós chegarmos. Escusado será dizer que nos juntámos todos na sala e dormimos junto á lareira.
Tinhamos decidido que iriamos comprar o pão no dia seguinte e assim foi, acordámos carregámos connosco o leite a manteiga e o Nesquick e fomos á procura de uma padaria. Junto ao Barrocal estão várias aldeias, e tinhamos a certeza que todas tinham uma padaria. Perguntámos em Motrinos pela padaria, pelo que nos disseram que a única padaria era em São Pedro do Curval. Fizemos a distancia entre as duas aldeias num instante, mas pior era encontrar a padaria no meio das estreitas ruas da aldeia! Depois de tanto deambular, vimos umas senhoras a subir a rua e perguntámo-lhes. Se estávamos confusos antes, pior ficámos, pois cada uma delas apontou para um local diferente. Uma dizia para fazermos inversão de marcha, outra para continuarmos estrada á fora, o que resultou em tema de conversa entre elas dando cada uma o seu palpite enquanto nós não percebiamos nada. Agradecemos e seguimos estrada abaixo. Depois de vários inqueritos de rua chegámos a uma casa de porta aberta. Entrámos. E realmente era uma padaria, muito antiga e uma padeira velhinha que nos atendeu. Comprámos o pão e saimos, cá de fora ninguem diria que ali era uma padaria, parecia uma casa normal!
O que se seguiu foi o melhor pequeno-almoço de sempre. Parámos junto ao menir mais proximo, do Outeiro se não me falha a memória, e foi encher copos de plástico com leite e chocolate e barrar o pão com manteiga. Deambulámos em volta do menir, copo de leite numa mão e pão na outra, conversando, rindo, absorvendo aquele sol ameno de inicio de Outono, junto áquele monumento com milhares de anos. Nessa tarde fomos a Elvas, com um grande guia que nos levou, o Duarte. Pois levou-nos pela estrada mais antiga e foi-nos mostrando todos os pontos de interesse por onde passávamos. Fortes abandonados, igrejas medievais, tudo isto enquanto o sol se punha sempre com o rio Guadiana ao nosso lado. Conhecemos Elvas e a fronteira com Espanha, e ainda fomos á feira que por lá havia nessa noite. Voltámos já tarde para o Barrocal.
O dia seguinte foi um dia de preparativos enquanto o Barrocal, se enchia novamente de pessoas, muitos deles, alunos do professor Calado. No entanto nós nada sabiamos do aumento de população do Barrocal, pois nesse dia saimos cedo para fazer aquilo que os arqueólogos fazem quando não escavam, ou seja prospecção. Fomos a um local já conhecido, ali mesmo ao lado do Barrocal, o Barrocalinho, um rochedo imponente com vestígios do Neolítico Antigo. A caminhada para lá foi longa, escusado será dizer, que quando lá cheguei estava tão cansado que me sentei numa rocha a descansar, enquanto isso o pessoal recolhia os liticos espalhados pelo chão. De repente, apercebi-me de um enorme vulto ao meu lado. Assustei-me. Era uma vaca! Ali mesmo bem perto de mim que pareceu tão assustada como eu! Surgiram mais duas subindo o monte e de repente estávamos rodeados por uma manada de vacas a passearem-se á nossa volta ruminando e mugindo aqui e ali.
Quando regressámos, já o Barrocal voltara a ser uma aldeia habitada. Fomos imediatamente para as imediações do Menir, ajudar para os preparativos do dia seguinte. Começámos a tentar perceber como o dia seguinte se iria desenrolar. A ideia era 140 pessoas a puxar 4 cordas mais 5 equipas com barrotes de madeira. As 4 cordas estariam presas a uma estrutura em A que por sua vez estaria presa á ponta do Menir de 16 toneladas. Tivemos a dar nós nas cordas, para servirem de apoio á quem fosse puxá-las, bem como recolher pedras para servirem de calce ao menir. Levantar cada pedra do chão revelava-se um poço de surpresas. Numa delas habitavam um escaravelho e um formigueiro, quando levantámos o "telhado" das suas casas, as formigas depressa se percipitaram para o pobre escaravelho que muito maior que aquelas miseras formigas se viu impotente para combatê-las e pereceu perante tamanho batalhão de formigas. Numa outra pedra uma rã fugiu enquanto ali perto um rato de campo escapou quando o seu ninho debaixo de um monte de rochas foi perturbado. Ensaios á parte, de repente o professor não se conseguia levantar. Ficámos preocupados como é obvio e levámo-lo para casa esperando que estivesse melhor para o Mega-Conserto no dia seguinte. Aparentemente e felizmente eram só nervos que o alfigiam. O que iriamos fazer não se repetia há milénios, tentar erguer um menir de 16 toneladas e de 7 metros de altura usando apenas a força humana, sem requerer qualquer máquina de hoje.
O dia seguinte foi de festa e preparativos. Enquanto de todo o país chegavam centenas de pessoas, nós, a equipa das alavancas organizavamo-nos pelas mesmas. Um largo festim foi oferecido aos visitantes, muita gente já estava bastante bebida, jornais, revistas e até a televisão lá estava para o acontecimento. Só ao fim da tarde começou o evento principal, erguer o menir do Barrocal. Depois de algumas palavras do proprietário do terreno e do nosso professor todos fomos para os nossos postos. O professor em cima do menir tombado gritou a plenos pulmões para que as 4 cordas tivessem quem as puxassem. A um sinal tudo começou. Num momento, nós puxamos as alavancas enquanto no lado oposto as cordas eram puxadas por dezenas de pessoas. O menir rugiu! Levantou-se alguns centimetros enquanto nós faziamos uma força colossal para aguentar as alavancas. Enquanto aguentávamos e as cordas esticadas, um grupo colocava o mais depressa possivel pedras debaixo do menir. se nós cedecemos nem quero pensar o que lhes poderia acontecer! Eram sem duvida os mais corajosos. Tudo isto acontecia debaixo de uma salva de palmas, assobios e gritos de encorojamento, e o click ininterrupto de máquinas fotográficas. Foi dada a ordem de folgar as cordas e alavancas lentamente, e o menir assentou nas pedras.
O sol foi-se pondo e lentamente iamos levantando o menir. Enquanto iamos fazendo a festa. Centenas de pessoas assistiam ao Mega-conserto. Velhos, novos, ricos, pobres, portugueses e estrangeiros e até famosos. Parecia que o mundo inteiro se misturara ali para assistir áquele evento. Cada movimento do menir era iluminado pelos flashes das camaras fotográficas. Colocámos as alavancas mais uma vez e preparámo-nos para fazer força ao sinal do professor. Alavancas encaixadas, o sinal chegou, com toda a nossa força empurrámos para baixo ouviu-se então um som de madeira a partir e toda uma equipa das alavancas tombou. A sua alavanca partira-se pela metade. Rapidamente, mudaram para a outra ponta. No movimento seguinte começou-se a ouvir toda a estrutura em A a estalar, rachas surgiram na madeira. Tomou-se a decisão de a retirar do Menir para não acontecer algo a toda aquela gente que puxava as cordas. Já era noite e continuavamos a erguer o menir da mesma forma, ninguem cedia, nem os aplausos, nem os flashes, nem os gritos de ovação. Apenas o material cedia, as alavancas do lado direito partiram-se devido á inclinação natural do monolito que era mais pesado desse lado. Era claro que não iriamos conseguir erguer o menir nessa noite.
Era já noite cerrada quando foi decidido que se continuaria no dia seguinte. Mas ainda não acabava o dia. Pois havia festa na casa do proprietário da herdade. Um rapaz jovem que herdara toda aquele terreno. Construira a sua casa meio isolada, apenas uma divisão, subia-se uma escada de madeira onde se encontrava a cama. Uma enorme fogueira iluminava o exterior com fardos de palha para o pessoal se abancar. Um grupo de viajantes, montara as suas tendas aqui, tocavam musica com instrumentos feitos por eles enquanto a comida era servida por uma empresa de catering, comida essa que não perdia os sabores do Alentejo. Acho que nunca vi uma festa tão fantastica ao calor do fim do verão.
Amanheceu. Levantei-me cedo, e fui ao Menir fotografá-lo, ainda antes de alguem lá chegar. Junto ao mesmo várias pessoas haviam pernoitado em tendas como há milenios homens e mulheres tambem o devem ter feito quando se ergueu pela primeira vez o menir. Os trabalhos só recomeçaram a seguir ao almoço, mas apareceu menos gente que no dia anterior. Não havia gente suficiente para puxar as cordas, por isso decidiu-se usar 4 jipes para puxar as cordas, novamente presas á estrutura em A. A um sinal os jipes puxaram, e no primeiro esticão a corda que ligava a estrutura em A ao menir partiu-se fazendo a estrutura vor em direcção ás viaturas. Felizmente a estrutra ficou presa numa oliveira e ninguem se magoou. Reforçou-se as cordas e tentámos mais uma vez. Mas surgiu outro problema, as alavancas estavam agora demasiado altas! As equipas de alavancas subiram para cima de carrinhas de caixa aberta e ainda conseguimos elevar o menir mais uns centimetros, mas era claro que não o iamos conseguir erguer, precisavamos talvez de um estrado para as equipas das alavancas, os discos de embraiagem dos jipes começaram também a ceder e o cheiro a queimado assustou os proprietários das viaturas. Por essa razão decidiu-se mais uma vez parar, para apenas continuar no dia seguinte com maquinaria pesada...
Acordámos cedo, pois a maquina que ia erguer finalmente o menir chegou mal o sol raiou. A máquina foi presa ao menir e começou-se a erguer o mesmo. O menir estava praticamente levantado, mas a máquina precisava de se reposicionar devido ao peso mal distribuido do monolito, para tal, tinhamos que colocar as alavancas dos dias anteriores a funcionar como estacas de suporte do menir. Colocámos duas estacas, e a máquina começou a mover-se, mas com a trepidação do solo caiu uma das estacas e depois a outra. Com um rugido que feza tremer a terra debaixo dos nossos pés, a pedra voltou a vencer-nos. O menir tombou mais uma vez acamando em cima das pedras colocadas nos dias anteriores. Foi claro que com uma máquina não seria possivel, teria que estar uma máquina de cada lado para o estabilizar. Chamou-se uma outra máquina e finalmente o menir foi erguido e colocado no exacto mesmo lugar onde fora implantado há milhares de anos atrás.
Nisto já era 1 da tarde de segunda-feira e todos nós tinhamos de voltar ás nossas vidas no mundo real. Partimos deixando o Barrocal novamente deserto mas com um motivo para ser visitado mais vezes. Ao passar por Évora tinhamos ainda que fazer duas visitas obrigatórias. O cromeleque dos Almendres e a Anta Grande da Zambujeira. Dois importantes monumentos megaliticos bem perto da cidade alentejana. Voltámos finalmente a Lisboa depois de uma viagem totalmente imprevista, com um destino, mas sem caminho, com um objectivo mas sem um plano para atingi-lo. Qunado me encontrei finalmente em casa os sonso urbanos eram insessantes, o som dos automoveis, dos aviões a sobrevoarem a cidade, dos gritos a meio da noite. Frente ao espelho perguntei-me se tudo aquilo tinha sido real, ou apenas um louco sonho. Fora sem dúvida real, fora uma aventura no mais profundo Alentejo.
Jamais esquecerei essa viagem e os amigos que me acompanharam. Se algum dia lerem isto, um grande abraço a todos vocês! E é claro não posso nunca esquecer o professor Manuel Calado cujos ensinamentos e palavras sábias me acompanharão o resto da vida. Só tenho pena não ter embarcado em mais trabalhos liderados por si. Mas felizmente posso seguir ainda hoje o seu trabalho através do seu blog e dos seus colegas do GEMA.
Um bem haja aos heróis do Barrocal!










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