sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Casa

Era uma vez, uma casa junto a uma estrada. Era uma casa grande, fora do normal, de cor diferente. Era tão fora do comum que muitos paravam perante ela para a admirar. A casa tinha um brilho natural que atraia quem por ali passava. Seria felicidade? Seria alegria? Seria inocente ingenuidade? Não sei. Apenas sei que esse brilho foi-se perdendo e com ele cada vez menos gente admirava aquela construção, que acabou por cair num esquecimento conveniente. Ninguem falava daquela casa a não ser por breves palavras e sussurros quase inaudiveis....


Lá dentro, continuavam aparentemente a viver as mesmas pessoas, mais velhas sim, muito diferentes, com toda a certeza. Por dentro a casa era uma mortificação da realidade, não era como uma casa dos filmes de terror, mas sim uma casa abandonada, fria, vazia, morta. Mas nada de sobrenatural acontecia nela, mas sim coisas bem reais e dolorosas. As escadas antes cheias de gente a subir e a descer eram agora precorridas por passos fugidios ora para cima, ora para baixo. No primeiro andar uma mesa com fotos de casamentos colocadas em molduras gastas pelo tempo, as fotografias são a cores, mas o peso daquela construção tirou-lhes a cor. Na casa há um grande salão onde muitos natais foram passados em familia, quando todos se juntavam naquele lar, a árvore de natal ao lado da lareira, o bar cheio de gente bebendo aperitivos e a mesa posta para a consoada. Agora, a lareira arde, até mesmo nos dias mais frios de inverno aquecendo como antigamente aquecia. Mas é um quente frio, sem calor, sem conforto, sem amor. Naqueles corredores vazios não se houve alegria, nem tristezas, apenas os ecos dos sons do que se passa lá fora. Quando está vento, ouve-se o vento a bater nas pequenas janelas das escadarias e infiltrando-se até pela mais pequena frincha, quando chove ouve-se o bater das gotas de chuva nas janelas e quando faz sol ouvem-se os chilreares abafados dos pássaros lá fora. todos estes sons ecoam pelo vazio que preenche o interior daquele "lar" perdendo a sua graciosidade natural, esvaziando-se de vida, morrendo. Constante é o som dos carros que passam na estrada para cá e para lá. Som esse que cresce agressivamente dentro do oco interior, alimentado pelo nada desta estrutura vazia.

Vivem lá pessoas. Tal almas perdidas, vagueiam sem rumo pelos corredores evitando-se. detestando-se, vivem esmagadas pelo peso do ódio que as habita. Discutem e gritam, para depois chorarem em silêncio. Vivem apaticamente, sem vontade de nada. Aquela casa suga-lhes qualquer vontade, são capazes de passar dias sem comer e beber, tal é a sua apatia. Vezes e vezes sem conta olham para o exterior para os dias de sol, mas não conseguem imaginar-se a sair daquela vazia clausura. E assim os dias passam, cada vez mais comidos pelo nada, cada vez mais consumidos pela apatia, pela tristeza, pelo peso avassalador daquele lar destruído. Impotentes perante tal cenário, deixam-se levar como um folha que é levada pela corrente de um rio, esperando uma solução divina que nunca chegará.


1 comentário:

Carlos disse...

Excelente texto. Muito fixe. Continua a escrever.