Gritas. Choras sentada no chão de calçada. Ele já cá não está nem nunca voltará pois foi levado pela morte. Choras agarrando o seu corpo inanimado naquela rua cinzenta. O teu choro é abafado pelos sons frios, sem sentimento da cidade. E tu ali jogada no passeio sem parar de chorar e gritar em desespero. Passa por ti uma multidão de pessoas mas ninguem olha para ti, ninguem se importa se choras ou não, seguem caminho ignorando-te. A tua dor monumental quase não te permite respirar e cambaleias de tristeza abraçando aquele corpo inanimado. Começa a chover. Abrem-se guarda-chuvas mas tu continuas ali caida mergulhada num desespero profundo. Homens, mulheres, carros e motas passam por ti mas ninguem se detem, ninguem repara em ti, ninguem quer reparar em ti, dão-te até encontrões incautos tentando não te tocar a ti nem ao corpo dele. Ignoram-te porque estão profundamente mergulhados num egocentrismo sem cura, no seu próprio mundo individual onde mais nada interessa. Tu? Tu sofres porque o perdeste irremediavelmente, mas também porque sabes que sem ele estás completamente sozinha neste mundo.
"As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros." - Oscar Wilde
1 comentário:
Tão verdadeiro...
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