Passei por ti de carro. De t-shirt amarela e calças verdes muito sujas, a endumentária do trabalhador da camara. Acenas-te discretamente com o mesmo sorriso que tinhas desde criança. Estás igual, o mesmo modo de andar, cabelo preto, grosso, despenteado a mesma tez escurecida o mesmo sorriso desde criança e os mesmos olhos claros. Entraste para a nossa sala na 2ª classe, tornaste-te bom aluno e rapidamente ficaste amigo de todos, ninguem te olhava de lado, embora toda a turma fosse descendente da mais fina casta local. Lembro-me que começaste a usar óculos, e que os perdias com frequencia, uma das vezes, como explicaste á professora, perdeste-os quando saltaste da ponte da Armona com eles e lá ficaram no fundo da ria! Passaste connosco o resto da primária e para o ciclo onde tudo mudou. No 5º ano o Caxi entrou para a nossa turma e começou a chamar-te de cigano e a gozar contigo, lembro-me que a moda rapidamente se espalhou pela turma toda. Começaste a afastar-te de todos, como seria de esperar, a faltar ás aulas e a ires para traz do bloco fumar com o Chuchu, o Kalu, e o Zeldo, o pessoal do Bairro dos Indios. Acabaste por chumbar o ano e de ti nunca mais soube absolutamente nada, pois continuei a passar de ano como toda a turma, até hoje. Foi bom rever-te amigo Rogério, nem que tenha sido por uns breves segundos.
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