Mais um natal em Santarem, até me teria proposto a opor-me veemente, mas estava triste. Já o estava desde os meus anos. Dias antes soubera que ela se casara com o namorado turco. Hoje riu-me só a pensar nisso. Mas na altura gostava muito dela e saber que ela se casara com um gajo só para lhe dar nacionalidade portuguesa pareceu-me mais um esquema daqueles como tantos há na internet. Estava triste por senti-la presa a uma situação que nem ela tinha bem consciência de onde se estar a meter. Faltavam poucos dias para o Natal e estava frio e enublado no Ribatejo. Com todo esse frio fui para o jardim das Portas do Sol, não sei porquê, queria passear onde ninguem tivesse ninguem.
O jardim estava deserto e como sempre dirigi-me logo para o Tejo. Não havia mais nada de interesse a não ser aquela vista magnifica, mesmo num dia cinzento. Subi a torre mais alta e encostei-me a um canto. De um lado e à minha frente a torre, do outro e atrás de mim, um percipicio de centenas de metros até à linha do comboio entre Lisboa e Porto e mais á frente o Tejo caudaloso nesse Inverno. Observava os carros a passarem na ponte enquanto era fustigado pelo frio daquele dia, perdi-me nos meus pensamentos.
Senti um vulto a passar pelo canto do olho. Assustei-me. Sabia que atrás de mim nada havia, virei-me instintivamente procurando enfrentar o que quer que fosse que passava ali tão perto. Um falcão, à distância de um braço. Imponente a voar determinado sem qualquer medo. Assim que me viu mexer, percebeu que eu estava ali, um humano. Vi a surpresa no seu olhar enquanto soltava um baixo crocitar de surpresa, a ave mudou imediatamente a sua linha de vôo, virando a sua barriga para mim batendo as asas na minha direcção tentando estar de frente para mim enquanto voava para trás. Mas com a mesma rapidez que se pôs nesta posição voltou à sua linha de vôo anterior subindo para bem alto. Segui-a com o olhar enquanto o falcão lá em cima descrevia circulos observando-me.
Senti-me abençoado, não no sentido religioso, mas por ter podido só eu observar aquela ave, ali tão perto no seu mais natural estado.
Voltei para casa sentindo-me um pouco menos vazio.

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