segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Borboleta e o Rochedo

Era uma vez um Rochedo remungão. Nunca sorria, e passava o dia a resmungar e a discutir com tudo e todos. Resmungava com a gaivota que lhe fazia o ninho na orelha. Resmungava com o mar por lhe molhar os pés. Resmungava com o vento por lhe enregelar as narinas. Resmungava com o sol por ser quente e com a noite por ser escura. Resmungava por resmungar porque resmungar era o que melhor sabia fazer.

Era uma vez uma Borboleta colorida. Cheia de vida, sempre a esvoaçar por aqui e por ali, sempre sorridente, a distribuir vida e alegria. Todas as flores a conheciam pela sua simpatia e vivacidade e sorriam quando passava. Sempre educada, sempre a distribuir carinho e simpatia, ela sorria para os campos e os campos sorriam para ela.

Um dia a Borboleta quis ver o mar. Chegou ao penhasco e admirou-se pela força do gigante azul que se jogava contra as rochas, rochedos e falésias. Quis perguntar ao mar porque se debatia tanto, mas teve medo de se aproximar daquele reboliço aquático. Viu então o Rochedo ali plantado no meio do mar com o seu punho erguido no ar, resmungando como sempre. Decidiu ir perguntar-lhe o porquê do mar lhe bater e o porquê do Rochedo estar tão chateado:

- Olá... - disse com um sorriso de orelha a orelha.
- Sai daqui! - Resmungou o rochedo - As tuas cores tão a encadearme a visão!
- Oh! Peço desculpa! Não o queria incomodar - Respondeu a pequena borboleta colorida sem perder o seu sorriso - Estava apenas curiosa...
- A curiosidade matou a borboleta! Agora desanda daqui!

O Rochedo, se se pudesse virar, teria-o feito. Mas como sempre fora um ser totalmente imóvel, limitou-se a revirar os olhos e olhar para outro lado como se a pequena Borboleta ali não estivesse. Continuava a resmungar baixinho, apenas se ouviam uns resmungos no meio dos sons do mar. A Borboleta esvoaçou, deu uma volta sobre si mesma, e voou para a frente do olhar do Rochedo:

- O que dizes? Estás a falar tão baixinho.
- Não estou a falar! Estou a resmungar! Estou a resmungar porque quero que me saias da frente. Percebes?
A Borboleta riu-se.
- Estás-te a rir do quê?!
- De ti, és engraçado. És um rochedo resmungão. hihihi! - Ria-se batendo as asas mesmo no nariz do rochedo fazendo-lhe cócegas.
- Pára! Daqui a bocado fazes-me espirrar. Sai já daqui se não...
- Se não?
- Se não! Se não! - O Rochedo respirou fundo e baixou o tom de voz - Vai-te embora por favor.

O olhar de ódio do Rochedo deu lugar a um olhar de tristeza enquanto olhava para o chão. E o sorriso da Borboleta desapareceu pela primeira vez na sua vida. Era de tal maneira a tristeza daquele rochedo que era contagiante:

- O que se passa? Porquê essa tristeza toda? - Esvoaçava agora irrequieta de um lado para o outro em frente do Rochedo esperando uma resposta
- Não te interessa. Vai-te embora, o teu bater de asas magoa-me!
- Desculpa! - E poisou no nariz do Rochedo. - Diz-me o que te magoa tanto por favor. Quero ajudar-te.

O Rochedo ficou atarantado, pela primeira vez lhe pediam desculpa por algo. E na realidade era algo tão insignificante que ele próprio se sentia mal por lhe terem pedido desculpa. Olhou a Borboleta nos olhos. Esta olhava-o preocupada sem sorrir com a tristeza espelhada no seu rosto:

- Fala comigo.
- Não é melhor não.
- Vá lá, quero ajudar-te. Se tivesse umas asas bem grandes abraçava-te agora mesmo.

O Rochedo respirou fundo:

- És tu. Vejo-te a esvoaçar livremente todos os dias. A sorrir para tudo e todos, a distribuires a tua felicidade e vivacida pelo mundo. Vejo a tua liberdade e queria eu próprio ser livre como tu. Poder voar por ai e ver os campos verdes que há lá em cima da falésia. Ver as flores e as montanhas, poder ir aonde eu quiser como tu fazes de uma maneira tão simples. Poder ir contigo ver o mundo.
- Oh! - Esclamou surpresa a Borboleta - Queres voar comigo e não podes!

A Borboleta voltou a sorrir:

- Não podes voar é verdade. Mas eu posso ficar aqui e fazer-te compania. Não posso te abraçar. Mas posso abraçar o teu nariz com muita força!

Envolveu o nariz de pedra cinzenta com as suas asas coloridas e deu-lhe um beijinho bem na ponta do nariz. Ouviu-se um som grave e todo o rochedo começou a tremer. A Borboleta esvoaçou pondo-se a uma distancia segura. Continuava a sorrir. Embora não soubesse o que se passava, sentia que não era nada de mau. O Rochedo olhava-a surpreso. Das suas costas um rugido enorme. A rocha quebrava-se estrondosamente, soando como mil trovões. Dois vultos despontaram nas suas costas rochosas, por entre o pó e que se levantara. Eram duas enormes asas, tão coloridas como as da pequena Borboleta:

- O que é isto que sinto?!
- São asas! Tu tens asas Rochedo Resmungão! Bate-as! Vai!

Pela primeira vez nos seus milénios de imobilidade, o Rochedo sorriu. Começou a bater as suas novas asas:

- Vai! Com mais força! Bate-as com mais força! - Gritava a Borboleta cheia de alegria.

O Rochedo batia as asas com toda a sua força, provocando uma ventania abismal. Lentamente começou a mover-se com um rugido abominante, até estar completamente fora de água. O mar bem tentava chegar-lhe mas o Rochedo já estava longe do seu alcance. A água do mar que se inflitrara nas ranhuras gargantuais do Rochedo durante anos, escorria agora de volta ao mar e as gaivotas levantaram vôo em panico. Pela primeira vez o Rochedo olhou por cima da falésia e viu os campos verdejantes meio alaranjados pelo sol de fim de tarde:

- É lindo Borboleta...
- Eu sei Rochedo. Vamos voar juntos e conhecer a beleza do mundo.

E partiram em direcção ao Pôr-do-sol.

"Happyness only real when shared."

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