Tinha 7 anos. Estavamos de visita a uma aldeia onde a minha familia crescera. Entre abraços, e sorrisos de felicidade ali estava eu... com um único pensamento que me assolava.
Sou mortal.
De repente percebi que tudo aquilo que experienciava, tudo aquilo que eu vivia ia terminar um dia. Percebi que nada é eterno que tudo o que começa terminará.
Tive medo. Não queria terminar. Queria ser imortal! Não queria terminar! Claro que com isto fiquei muito sério e todos me perguntavam o que se passava mas não respondi.
Mais tarde lá confessei á minha mãe. E ela tentou convencer-me do contrário. Quis convencer-me, hoje sei, da doutrina budista da reincarnação. Que depois de morto o meu espirito reincarnaria num animal.
Comecei a pensar que animal queria ser. Queria ser um animal que tivesse uma longa vida e vivesse longe dos predadores. Para viver bastante tempo!
Este pensamento ainda me enganou alguns anos até que cai na dura realidade.
Depois da morte não existe nada. Não dá. Não consigo acreditar que exista algo depois da morte! Ganhei consciência de como somos tão frágeis fisicamente, como um simples gesto nos pode condenar e terminar.
Rapidamente percebi que muito pouca gente tem consciência disto. Ou melhor, sabem-no perfeitamente mas custa-lhes ver essa verdade perante os seus olhos. Então preferem acreditar nas ilusões, nas fantasias religiosas de que não terminamos.
Tenho que confessar. Admiro muito quem consegue ver um fim, como uma continuidade. Mas admiro mesmo! Porque eu não o consigo fazer!
Todos terminamos invariávelmente! E o que fica de nós são apenas as memórias dos que gostaram de nós enquanto vivos. E mesmo assim.. uma ou duas gerações depois e desaparecemos completamente no vazio da memória.
Percebi então uma coisa... a única maneira de nos imortalizarmos é através do que deixamos gravado na terra.
"O que fazemos na vida, ecoa na eternidade"
Percebi isto no primeiro ano de Universidade. Vi-me rodeado de civilizações que se dedicavam a eternizar-se de reis, que passavam a vida a imortalizar os seus feitos em textos e monumentos.
E tal como hoje, se vivia nesta ilusão da eternidade religiosa mas ao mesmo tempo, tendo perfeita consciência desta ilusão.
Percebi então como aquele camponês que escreveu ao seu chefe a dizer que não iria trabalhar para estar com a esposa durante a menstruação era tão imortal como Ramses, Julio Cesar ou Gilgamesh.
E muitos destes homens e mulheres nem sequer os seus ossos nos chegam. Mas as suas palavras tornam-nos vivos dois, três, quatro mil anos depois de terem perecido.
Agora. Continuo a temer o fim. Mas tenho a perfeita certeza que quero que os meus feitos ecoem para sempre na história do mundo.
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