segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Mundo sem sentido...

Estavas desempregado há anos. Saiamos todos á noite. E sobre ti caia sempre as atenções. Os dedos apontados, os risos de troça. Não abrias a boca, calavas-te. Baixavas os olhos olhando para de baixo da mesa enquanto se riam de ti. Com palavras quase inaudiveis para a pessoa a teu lado, pedias que te pagassem o café. Chamavam-te perguiçoso, insinuavam seres um tarado sexual, se ripostasses quase te batiam por teres levantado a voz...

E era isso que para ti era uma amizade. Aproximei-me de ti, tentando tirar-te desse canto onde todos te punham. Saiamos, iamos aqui e ali. Viajávamos pelo Algarve. "Olha hoje vamos a Castro Marim"; "Vamos jogar snooker na praia de Faro"; "Vamos ai ver onde os caminhos no levam."

Perguntava-lhe: Queres um café? Respondias-me sempre que não, mas eu sabia que querias, não tinhas era dinheiro nem para o pagar. Nunca pedias nada, mas eu vi-a que querias algo e dava-to sem qualquer problema. Afinal eramos amigos.

Falavas de ir á pesca. Então iamos, sabias toda a arte, até com pão iamos á pesca. Conversas de amigos, abertura de coração que conheci, os teus problemas, os meus problemas, e sobre os amigos que haviam deixado de o ser.

E aquele dia em que me disseste que tinhas carta de condução mas medo de conduzir? Fomos para a Zona Industrial e dei-te o carro para as mãos. Quando já estavas confiante, disse-te para irmos até Faro. Suavas com os nervos e tremias como tudo. Mas foste. Dizia-te para teres calma enquanto pegavas num carro pela primeira vez em anos.

Mas que significava isto para ti, amigo? Nunca significou nada aparentemente... Uma conversa que tive contigo, rodou todos os que conheciamos. E finalmente, obrigaram-te a dizeres-me o que tinhas feito.

Não tinhas feito nada de especial, apenas traido a minha confiança para te rires de mim, com os outros, numa conversa de café. Foste contar isso a eles, que contaram a outros que tinham mais consideração por mim e te fizeram "confessar".

Pensei em cortar contigo mesmo ali, mas não, aceitei o que fizeras e prosseguimos como se nada fosse...

Foi apenas o primeiro sinal..

Anos e anos de amizade seguiram-se. Arranjaste trabalho, foste despedido. Continuaste á procura, e eu sempre lá ouvindo-te e ajudando como podia... E tu fazias o mesmo. Ou será que fazias?

De um momento para o outro, começaste a afastar-te. Se calha tive culpa em algo que disse ou fiz. Mas anos de amizade não se deveriam quebrar tão facilmente. Durante meses evitavas-me. Quando tentava falar contigo, fugias, mudavas de assunto...

Por fim, disseram-me. Há meses que falavas mal de mim pelas costas. Estavas bem. Trabalho permanente, e andavas sempre com uma mulher. Eu estava mal. Regressara para casa, sem trabalho e sem dinheiro.

E quando mais precisei de te ter como amigo ao meu lado. Estavas aos telefone, com um dos teus engates de internet. Eu mal e tu quase a teres uma sessão de sexo ao telefone mesmo ao meu lado...

Fiquei desapontado... Anos de amizade desaparecerem assim...

Se calha nunca fomos amigos. Se calha fui só eu outra vez a dar demais...

Sei que ainda gozas comigo quando calha. Arranjaste emprego e um dos teus engates da net vingou.

Felicito-te.

Mas não quero voltar a olhar para ti.

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