Todas as pessoas que passam pela nossa vida nos marcam, de uma maneira ou de outra. Umas menos, outras mais. Os amigos ficam para sempre, mesmo com a distancia, eles ficam na nossa memória...
Isto é uma verdadeira verdade, lembramo-nos deles, pelos momentos que passamos juntos.
Um caso bem diferente é o das pessoas que nos marcam negativamente. Não nos lembramos de bons momentos, mas apenas da pessoa em si e dos actos que nos atingiram... Claro que há quem tenha uma corrente de suporte sempre que é atingido por um desses actos. Mas há também quem não tenha ninguem. Quem seja obrigado a suportar tudo nos seus ombros, num silêncio insano esperando uma palavra amiga, um telefonema amigo, uma presença amiga. Espera-se deitado na cama, agarrado á almofada, á hora do jantar, no trabalho, ou enquanto estamos longe do telemóvel e corremos para este esperando "1 chamada não atendida" ou "1 mensagem nova".
Nada. Ninguem liga. Ninguem pergunta. Ninguem se atreve a contactar-te. Retrais-te. Calas-te e não dizes nada. "Está tudo bem" respondes sempre. Embora não esteja....
E assim nos marcamos, porque não temos alguem que nos aconselhe, nos leve a esquecer quem nos atingiu. E tal e qual uma cicatriz, sempre que olhamos para ela recordamos aquela dor lacinante, aquele momento extremamente negativo. Assim a cicatriz muda-nos, intoxica o nosso ser, fazendo-nos mudar. E quando mudamos devido a algo mau, então mudamos para algo mesmo muito mau. De repente pomos em causa, aquilo que essa pessoa pôs em causa. E nós próprios nos pomos em causa e a tudo aquilo que defendiamos até então.
Quebramos barreiras, e deixamos de ser quem éramos. Passamos a ser algo novo, mas construido pela dor do passado. Deixamos de fazer sentido a nós próprios!
...
Comigo aconteceu isto. Não sei se será o mesmo para os outros. Mas isto aconteceu comigo. E tudo graças a três pessoas e num curto espaço de tempo.
Uma tirou-me a inocência.
Outra, o futuro.
E a terceira pessoa, tirou-me o amor.
E não, não tenho força para superar isto. Estou a tentar há anos, mas não consigo. Resignei-me completamente. Mas longe vão os dias em que passava manhãs sentado na cama a pensar nisto, em que faltava a compromissos por estar preso apáticamente a estas três pessoas.
pensava... Pensava... Estava sempre a PENSAR! Em como me arrancaram isto do corpo, como se me tivessem arrancado a roupa e jogado na rua.
Agora, é normal não ter nada disso.
Pois é impossivel voltar a ser inocente quando já não o somos.
Um futuro? É dificil explicar o que aconteceu... mas imaginem um comboio de carga a alta velocidade onde trazem toda a vossa vida. De repente, mesmo quando o comboio vai passar, retiram-lhe os carris todos. E o comboio, obviamente, descarrila...
E o amor... A falta de inocência acaba logo com a possibilidade de este voltar a existir. Mas também porque olhamos em redor e não conseguimos sentir nada por ninguém. Não conseguimos nos abrir com ninguêm. Sais com alguem que não conheces. E essa pessoa fala de si, fala da sua vida, da sua familia, daquilo que a faz rir... e tu... não consegues articular uma conversa sobre ti. Perdeste a capacidade para tal... a conversa morre... essa pessoa remete-se ao silêncio... Por fim lá consegues articular uma palavra... falas de politica, de economia, de história.... nada interessante, nada sobre quem tu és... Também porque na realidade não sabes quem és... no fim essa pessoa vai-se embora... nem te cumprimenta direito, meio assustada pela tua estranheza agora natural...
E é assim que tu és, um estranho numa terra que se tornou estranha, Um ser marcado, sem destino, sem moral, que se esqueceu de regras básicas de convivência...
E isto tudo sou eu. Um ser sem sê-lo que a única pessoa que poderia compreendê-lo era ele próprio, mas não o consegue fazer.
Por isso o silêncio, a reserva, a frieza, a apatia, a resignação, a falta de ser humano, de um humano que se sente absolutamente sozinho, absolutmanete perdido, absolutamente abandonado. E, sem ser merecedor de uma única palavra de aprezo seja de quem for...
Por isso, para mim, "está sempre tudo bem"...
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