sexta-feira, 18 de março de 2011

A Menina e o Touro

Era uma casa antiga, como tantas outras perdidas no emaranhado urbano citadino. Estava arranjada, bonita por fora, contrastava com outras abandonadas, de vidros partidos e telhados caídos. Nesta casa antiga, vivia uma menina. Mas a menina não gostava daquela casa, achava-a feia, horrível, terrivelmente assustadora. Quando lhe perguntavam porquê a menina não conseguia explicar. As palavras não lhe saiam de maneira nenhuma e qualquer explicação perdia-se num suspiro. Só ela sabia o que aquelas quatro paredes escondiam realmente...

Quando jogava a chave á porta da casa, a menina inspirava profundamente. A chave entrava, torcia-a na fechadura destrancando a porta. Ficava sempre ali, um curto segundo, a ganhar coragem de entrar naquela casa antiga. E empurrava a porta para que se abrisse. Do outro lado, um corredor, daqueles á antiga, altos, alongados, cuja magnitude fazia sentir que toda a casa se curvava sobre nós dando-nos umas sombrias boas vindas. As paredes rusticamente irregulares, eram pintadas de um branco sem vida e humildemente decoradas pelo passado. Portas de madeira, pintadas num branco usado estendiam-se ao longo do corredor, perdendo-se na escuridão daquele espaço.

Todos os dias a menina enfrentava esta realidade, ter que entrar naquele corredor, de portas trancadas, apenas iluminado pela luz da rua, que salientava os contornos da parede rústica, e de todos aqueles objectos decorativos perdidos na memória de gerações de uma família. Quando o corredor se revelava perante ela, mais uma vez, ela esperava, ganhando coragem de deixar a soleira da porta, de deixar a rua iluminada e penetrar naquela escuridão fria e negra.

Mas isto, não era nem metade do que esta menina tinha de enfrentar sempre que chegava a casa...

"Toc toc" seguido de um bufar. Os cascos batiam no chão de lajes de cimento pintado, como que numa dança incessante, de um lado para o outro, o bufar enfurecido, o mugir enlouquecido, "toc toc toc", ecoavam pelo corredor. De coração acelerado, a menina escutava estes sons vindos da escuridão, do interior do seu lar. Sabia onde estava a besta. Mas tinha sempre medo, um medo interior, crescente, dominador, que a prendia sempre á soleira da porta. Voltou a ecoar um longo mugido do corredor. E ela ganhou coragem.

Correu para o interruptor da luz, assim que entrou a porta começou a fechar-se, parecia eternamente longe o interruptor. A luz começou a diminuir, a pesada porta, quase a fechar-se, com o típico estrondo de todos os dias.

Restava apenas uma réstia de iluminação da rua, diminuta.
"toc toc toc" e um bufar naquela quase escuridão.
Já não via onde estava o interruptor.
Jogou a mão apalpando as rugas da parede, procurando desesperadamente aquele botão de luz. "Muuuuuuuuu" um mugido estridente sentiu-se por toda a casa. Sentiu o botão por entre os dedos. Olhou a porta. Fechava-se. A luz desapareceu num estrondo, selando-a ali naquela prisão composta de paredes de penumbra. Por meio segundo, susteve a respiração, como se estivesse dentro de água. Sentiu-se sem fôlego. Outro mugido gutural tomou posse da escuridão. "TOC TOC TOC"

"click"

Fez-se luz. A menina com a respiração acelerada, de costas para a parede, o coração a parecer que lhe ia sair da boca. O corredor agora iluminado por uma luz amarelada e o som dos cascos ecoando mais uma vez naquele silêncio, iluminado por uma luz que se pensa quente, mas que ali, se sentia fria. Controlou-se. Enfrentou o corredor e percorreu-o. O som dos cascos crescia, os mugidos ora curtos, ora longos e sonoros, eram incessantes. A besta estava irrequieta.

A menina sabia bem onde ela estava. Atrás daquela porta, onde a tinta branca descascava. Onde tinham colocado sete fechaduras á pressa, esburacando a madeira maciça sem dó nem piedade, apenas procurando trancar aquele quarto. Os batentes haviam perdido a sua cor dourada original, e começavam a enferrujar-se. Quando passou pela porta a menina fazia sempre o mesmo ritual, passava silenciosamente, com passos curtos, de costas coladas á parede contrária, olhando a porta com um temor irracional. Sentia-a do outro lado daquela porta de madeira. Os batentes tremiam com o bater dos cascos no pavimento, soltando um pequeno som de metal a bater em metal...

Esgueirava-se lentamente, mesmo em frente daquelas sete trancas, as mãos coladas á parede. Ouviu um bufar, e os cascos a baterem no chão, cada vez mais acelerados. Ela tinha um ritual, mas o touro também tinha. O animal embateu contra a porta resultando num estrondo, que fez tremer toda a estrutura antiga da casa, a porta susteve todo o impacto, os batentes saltaram rebatendo com violência. A menina sentiu o touro recuar. Como sempre, era aquela forma que o animal comunicava com ela, que lhe dizia que a sentira chegar...

E esta era a rotina a que ela se habituara. Esta luta diária dentro de sua casa, contra uma besta que a atormentava. A qualquer hora do dia surgia um mugido, ou um estrondo vindo daquele quarto fechado há anos. Ambos sabiam que aquele impasse teria que terminar um dia, ambos sabiam que um dia ter-se-iam que enfrentar, um ao outro, e a si mesmos, numa luta de onde só um sairia vivo.

Não havia solução, mais dia, menos dia, a menina teria que enfrentar o touro...

Sem comentários: