terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Frio

Sentia frio, queria abrir os olhos mas não tinha vontade de o fazer. Ouvia alguem a murmurar, ouvia-a perfeitamente mas não conseguia entender, era uma mulher. Abri os olhos mas não via nada, apenas uma imensidão branca, uma luz forte que me obrigava a fechar os olhos. Obriguei-me a abri-los, um vulto estava debruçado sobre mim, ainda tinha frio. Tentei ver quem era aquela pessoa, mas parecia que tinha água nos olhos, via tudo como se uma fina pelicula de água cobri-se os meus olhos mas na verdade sentia-os secos.

Sentia-me fraco, não me conseguia mexer, concentrei todas as minhas forças para tentar ver. A pouco e pouco vi quem era ela. Linda, totalmente empenhada no que estava a fazer, vi que as lágrimas corriam pela cara dela, mas estava tão empenhada no que estava a fazer que não cedia ao choro. Passou a mão na testa, e aproveitou para limpar uma lágrima que descia a sua doce face, as suas mãos estavam cobertas de um liquido vermelho que lhe ficou na testa e na bochecha. Finalmente entendi o que dizia baixinho, "não morras por favor" e repetia-o vezes sem conta. As suas mãos não as via, só via o seu rosto cheio de uma mistura de tristeza e choque.

Achei aquilo um absurdo, tentei levantar-me mas não consegui, tinha frio, estava cansado, só queria dormir, foi então que senti um sabor estranho na boca, estava tão confuso que não o percebi de imediato, sabia-me a sangue. Percebi então que aquele liquido no rosto dela era sangue, o meu sangue. O que acontecera?! Tentei lembrar-me mas não entendia nada, nem sabia onde estava! Comecei a ficar preocupado, comecei a entrar em pânico, ia começar a chorar, não acreditava que aquilo me ia acontecer, aquilo não me podia acontecer, não agora!!!

Quis gritar mas não consegui, quis mexer-me mas não consegui. Ela percebeu-me a mexer e olhou para mim. Olhou-me nos olhos, os olhos dela estavam vermelhos de tanto chorar e realçavam a sua cor azul. Num ápice senti um pouco menos de frio, senti alegria, felicidade, amor, amizade, carinho e desejo. Esforcei-me com todas as forças que me restavam e ergui a minha mão, e encostei-a ao rosto dela, com o polegar limpei uma lágrima, tentei dizer-lhe que não queria que ela chorasse mas as palavras não saiam, não tinha quase força nenhuma, o frio voltava novamente e sentia-me extremamente cansado, queria dormir. Consegui num último folego expressar um pequeno sorriso.

Senti a visão a ficar turva novamente, gradualmente ela voltou a tornar-se um vulto, já não a reconhecia novamente, mas ainda a conseguia sentir, senti os seus lábios a darem um beijo na minha mão, sentia envolvê-la nas suas delicadas mãos cobertas do tal liquido vermelho.

Perdi todas as forças mas senti o meu braço desfalecido, erguido, seguro pelas suas mãos. Fechei os olhos preparado para descansar, lá ao fundo ouvia-a a chorar baixinho, ainda murmurando as mesmas palavras.

Sucumbi...

3 comentários:

Catarina Loureiro disse...

Digno de um épico cavaleiresco! Adorei a parte em que ele descobre que o liquido é o próprio sangue.

Próximo texto! Estou à espera! :)

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Anónimo disse...

WOW!!!
A sério está lindo, ADOREI!!!
É sempre bom ver boa literatura espalhada por aí...

Anónimo disse...

Fikei sem palavras...
Tá mesmo mt fix!