sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Branco, o Preto e o Mendigo

Estou sentado em frente á televisão, não consigo pensar no que está a passar na tv. Só há um pensamento na minha cabeça, um pensamento que me consome que me quer todo para ele. Tenho que ceder a este sentimento, a esta vontade de fazer algo proibido, algo que eu sei ser certo. Oiço um trovão, chove a cantaros, o tempo ideal para aquilo que quero fazer. O meu sombrio quarto só é iluminado pela luz da televisão, estas paredes intemporais contariam muitas histórias se falassem, agora só estão comidas por este tempo decadente ao qual fui atirado. Calço as minhas botas de cabedal e levanto-me. Olho-me no espelho sujo, a minha blusa de alças está comida pela sujidade, não tenho dinheiro para outra roupa. É tudo culpa deles, vêm para o nosso país roubar os nossos empregos. E nós, verdadeiros donos deste país morremos á fome. Olho para o meu cabelo rapado, marca daquilo em que acredito. Marca da minha descriminação. É tudo culpa deles! Visto o casaco negro. O sentimento continua a crescer, hoje vou matar um preto.

Acordo. Sinto um peso no coração. Oiço a minha mãe a chorar. O meu pai voltou outra vez bêbado a casa. Há três meses que não consegue arranjar um emprego, desprezam-no por ser africano, por ter pele escura. Malditos cabeças rapadas! Já eu o sinto na pele, descriminação só porque não sou branco. Levanto-me, chove torrencialmente lá fora, o clima perfeito para o sentimento que invade a minha alma. Visto-me, calças de gangas antigas, do meu pai quando tinha a minha idade e a minha swet de capuz cinzenta que consegui comprar com os poucos trocos que ganhei naquele verão que trabalhei nas obras. Malditos brancos! Não nos deixam ter trabalhos decentes, somos obrigados a ter os mesmos trabalhos que os nossos antepassados, escravos, tinham. Oiço um trovão enquanto calço as minhas sapatilhas brancas. Ponho o meu boné vermelho, já muito gasto e rasgado, o único que tenho. Este sentimento está a cegar-me hoje, tenho de o libertar! Hoje tenho de matar um branco.

Saio de casa, a chuva beija-me a cabeça rapada e escorre pelo meu rosto. Olho em volta, nas ruas passam os carros dos trabalhadores da manhã, pessoas escondidas atrás das suas gabardinas e dos seus guarda-chuvas. Sigo rua acima contornando este rio de pessoas dedicadas aos seus trabalhos que movimentam este meu país que me orgulho de pretencer. Contorno a esquina. Ao fundo da rua vislumbrei um preto.

Saio de casa, chove torrencialmente tapo o meu velho boné com o capuz, não olho para lado nenhum a não ser o chão, este sentimento que me consome não me deixa olhar para ninguêm, pois se olho os brancos que me rodeiam o sentimento cresce ainda mais. Ainda tento controlar este sentimento dentro de mim enquanto contorno estas gentes que me rodeiam. Contorno a esquina e instintivamente olho em frente, ao fundo da rua, por entre tantos vultos que por mim passam na sua correria matinal, vislumbro um que me olha nos olhos, um cabeça rapada, um branco.

Não me controlei, deixei este sentimento, estes pensamentos irracionais consumirem-me, apenas comecei a correr na direcção do preto. Só o queria ver morto.

Não me controlei, deixei este sentimento, estes pensamentos irracionais consumirem-me, apenas comecei a correr na direcção do branco. Só o queria ver morto.

Acordei com frio, chove, os meus cobertores estão encharcados. Chove torrencialmente. Mas eu sempre adorei sentir a chuva no meu rosto. Lembra-me a minha infância no campo, nas vezes que ajudava o meu pai na lavoura. Não me recordo o nome da minha aldeia, era ainda um jovem quando a deixei para vir para a cidade. E agora aqui estou, a viver na rua, a viver da esmola e do lixo As minhas únicas posses a roupa que tenho no corpo, um pedaço de cartão para não dormir na calçada do passeio e três cobertores que rapinei do lixo. As pessoas olham-me com desprezo mas eu sou feliz com aquilo que tenho, na minha condição de mendigo não me posso dar ao luxo de ser infeliz ou ter qualquer tipo de pensamento negativo. Vivo o dia com aquilo que ele me dá, e vou vivendo. Penso na vida enquanto dezenas de pessoas passam por mim nesta manhã chuvosa. Levanto-me, quero apreciar a chuva, abro os braços, fecho os olhos e esboço um sorriso. Reparo como as pessoas se afastam de mim, querem evitar-me pois receiam-me pelo meu aspecto sujo e pobre. Não me interessa, enquanto houver chuva eu tenho tudo.

Olho para o outro lado da rua e vejo algo de estranho. Pelo meio das pessoas vejo duas no chão a debaterem-se furiosamente como dois cães raivosos. Esmurram-se mordem-se, pontapeiam-se rebolando no chão molhado, um é branco e outro é preto. Gritam de dor e de raiva, choram com o ódio que sentem. Olho em volta, sou o único a reparar nesta situação, ninguem os está a ver, as pessoas passam por eles como se lá não estivessem, ignoram totalmente o branco e o preto.

Pararam, estão os dois estendidos no chão. Atravesso a rua para os ver. Jazem ambos numa lago de sangue, o sangue de ambos. O preto tem uma faca espetada no coração e ainda mexe. O branco a garganta cortada. O seu sangue mistura-se na morte, as pessoas não olham continuam a passar na rua ás dezenas compenetradas no que têm que fazer.

Olho para estes dois jovens, nos seus olhos mortos está ainda presente o ódio que sentiam um pelo outro. Parece, que estranhamente, o Universo, tem uma maneira de se auto-corrigir.

Bem, a chuva parou, o sol começa a espreitar, vou ver se encontro algo para comer...

2 comentários:

ninguem disse...

Identifiquei-me com a tua escrita e principalmente os temas que tu falas.
Usas palavras que de alguma maneira mexem com a pessoa, assim como se uma garra nos perfurasse o peito e nos apertasse o coração (hum, demasiado sangrento se calhar).

Esta última história tua fez-me lembrar o filme Crash. Não sei se já viste, mas vale a pena. Muda a vida de uma pessoa (pelo menos para mim foi assim, mas Bah! Eu sou à antiga, emociono-me com tudo)

Catarina Loureiro disse...

Sem querer li o teu texto em voz alta. Acho que fez ainda mais efeito.

Está muito forte. Tens talento para descrições amargas e de realidade crua.

Continua Vaskito, agente bê-se por ai na Facul (mto raramente eheh) e na net!

P.S: olha a moça Guida já anda por aqui! olá! :)