Manhã de Fim-de-semana, mercado semanal. As ruas são invadidas por novos arquitectos de ruas. Feirantes. Homens e mulheres que descem dos campos para vir vender o que fazem. As cores vivas dos legumes misturam-se com as cores pálidas dos frutos secos, os frascos de mel da serra, o piar de piriquitos, rolas e galinhas aninhadas em gaiolas junto a caixas com coelhos enquanto no ar impera um cheiro forte a peixe fresco vindo de dentro do mercado. Tudo isto é sentido pela clientela que toma estas novas ruas feitas de barracas. Ruas improvisadas, cheias de gente alvo fácil do pregão do feirante que tenta ganhar algo para ir vivendo como pode.
Os tacões do borracha bateram na calçada, o seu som breve dispersou-se rapidamente no milhar de vozes que se ouviam naquela manhã. O velho agarrava aquela estrutura de ferro com todas as suas forças enquanto respirava ofegante. Olhava em volta enquanto era vitima dos encontrões de um casal de jovens que nem reparou que batera em alguem. O velho olhou para as costas do rapaz que acabava de o ignorar. Queria manifestar a sua indignação, mas pensou melhor. Seria melhor guardar as suas forças para se manter em pé. Olhou em frente. Determinado. Com a força de um Hercules.
Levantou o andarilho do chão. Deu um passo, imediatamente outro, e outro e outro. Sentiu-se cair, as suas pernas não aguentavam. Estava em queda livre, por apenas meio segundo mas para ele parecia uma eternidade. Os tacões de borracha embateram contra a calçada mais uma vez salvando-o da queda fatal. Estava ofegante outra vez. Tentava controlar a respiração enquanto olhava pelo meio da floresta de pessoas á procura da saída. "Vou chegar ao fim da rua", pensou determinado.
Naquele momento atravessou-se um jovem pescador com uma caixa de sardinhas á sua frente. O velho seguiu-o com o olhar. Os seus olhos denunciavam a sua alma que se recordava naquele momento de antigas sardinhadas, na juventude. As festas populares, as musicas, os sorrisos dos novos de então, agora velhos e a alegria dos velhos de então, agora desaparecidos. Na rapidez de um pensamento, o velho olhou para si próprio no meio de toda aquela confusão de Sábado. Ele era um velho, acabado, que já não conseguia andar livremente. Agarrou com mais força o andarilho enquanto tentava suprimir uma lágrima que lhe escorria pela face. Ninguem reparou naquela lágrima, pois a sua tristeza, morreu ali mesmo de velhice enquanto era sufocada pela alegria da vivacidade que o rodeava.
- Não - pensou - não vou ser derrotado. Vou chegar ao fim desta rua.
Ergueu o andarilho mais uma vez e deu um, dois, três, quatro e cinco passos! O andarilho bateu outra vez no chão violentamente.
Ergueu-o imediatamente e deu mais cinco passos, os que aguentou até sentir-se cair novamente. Ergueu-se e deu mais cinco passos. E mais outros cinco, e ainda outros cinco! Estava cansado. Não desistiu, ergueu a estrutura de ferro mais uma vez e caminhou por quatro curtos passos antes de sucumbir mais uma vez. E mais uma vez ergueu-se para dar agora apenas dois passos. Ergue-se mais uma vez e apenas um passo deu. Sentia o coração acelerado, tonturas, a velhice a querer vencê-lo outra vez.
Sentiu-se desfalecer o chão parecia mais próximo. Mas. Reparou então no silêncio. A custo ergueu a cabeça. Estava longe do mercado, a brisa maritima beijava-lhe o rosto, os sons do mercado estavam lá longe no mercado, agora ouvia-se o gentil piar das gaivotas que debicavam os restos de peixe deitados ao mar. Conseguira. Chegara ao fundo da rua. Sentou-se num muro e descansou sentindo o sol no rosto.
Preparava-se agora para uma outra odisseia. Voltar a casa...
1 comentário:
As cores, os cheiros, o tacto...está tudo tão bem expresso. Este texto arrepia pela sua veracidade e a força do velho com o andarilho...
Muito bom
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