segunda-feira, 26 de maio de 2008

Dezembro de 2003


Que dia é hoje? Não sei, não me interessa. Não penso no futuro, nem no presente, mas apenas no passado, em como queria voltar tudo para trás, poder reparar os erros cometidos. Não me interessa as guerras do mundo, a politica, o filme que deu ontem na televisão, o jogo que acabei há dez minutos. Nada mais me interessa, perdi a vontade de viver o presente, não tenho esperança num futuro melhor. Porque não existe um futuro melhor. São apenas pensamentos positivos de pessoas que vivem em mundos de ilusão. O futuro é o que se constrói no presente, o presente é uma construção do passado. Mas eu não construí, eu destruí, tento em vão reconstruir mas tudo se afunda num mar de desprezo, dor, até mesmo raiva. Tudo provocado por mim, tudo por mim. Um grande amigo disse-me “os problemas têm a importância que lhes damos”, é verdade, mas é impossível esquecer um problema que insiste em voltar em qualquer coisa que eu faço. Seria fácil esquecer como muitos dizem “Tens que esquecer”, mas como posso eu esquecer a mulher que eu amo? Poderia esquecer-te, fingir que morreste, que apenas existes na memória e que nunca mais voltarás. Mas então oiço o teu nome, oiço a tua voz ao passar perto de ti, vejo-te. E então passo a ver-te como um espírito da pessoa que eras comigo. Quando desço a rua da tua antiga casa, lembro-me de quando te acompanhava até ela. As vezes que conversávamos ali mesmo, foram poucas, três talvez, não sei ao certo, mas lembro-me do que falámos. Olho para as cartas que jogo todos os dias, está lá o teu rosto em cada uma delas, lembrando-me os nossos jogos. O caderno onde apontava os resultados, nas últimas paginas ainda está lá o teu nome, não me atrevo a abrir aquele caderno para continuar a anotar outros jogos. Olho para os manuais de AD&D e estás lá outra vez, Lidda, feiticeira. Oiço musicas que acabam lembrando-me de ti, porque sei que são musicas que se as ouvisses irias gostar delas. Locais, onde me encontrava contigo, parece que te vejo outra vez nesses locais comigo. Lembro-me das vezes que estava contigo na escola, do dia que te disse o que sentia por ti. De cada vez que passo naquela esquina, arrependo-me dessa noite. Arrependo-me de quase tudo que fiz depois desse dia. Nessa noite, mal dormi, não queria perder-te, mas acabou acontecendo. Acho que tivemos os dois culpa, eu desconfiava de ti, achava que já não eras verdadeira comigo, mas eras, apenas afastavas-te de mim porque não me querias dar esperanças. Eu refugiei-me em amigos e falsos amigos, o resultado foi o que tu já sabes. Deste ano, só o mês de Janeiro foi lindo para mim, quando falávamos na net, na escola, o torneio. Foi sem dúvida um dos melhores momentos da minha vida. Mas agora que olho para trás vejo que se calha já amava-te de mais atrás ainda, lembro-me de te ver nos braços de outro e de querer ser eu no lugar dele. Mas o que interessa isso agora? Não sei se vais ler isto ou não, mas sei que se leres provavelmente ainda vais gozar comigo depois, ou então amarrotar o papel e deitar fora. Como tu disseste, já não sou nada para ti. Lembras-te quando me disseste isso? Quando proferiste tais palavras, tive a sensação de que tudo em meu redor se auto destruía, tudo se acabava, era o fim apocalíptico de tudo aquilo em que acreditava. Talvez tivesse sido menos doloroso se me tivesses matado, apunhalado, disparado sobre mim. Senti-me como se tivessem agarrado em mim, e me torturassem eternamente, como se me tivessem achicotado durante um milhão de anos. O que é a dor do corpo em comparação com a dor da alma? Sabes responder a esta pergunta? Eu sei o que é, é quando não há sentido para a tua vida, é quando o mundo te diz “desaparece, não fazes falta neste lugar”. É quando chegas a casa, vês tudo o que tens e te perguntas “Vale a pena continuar?” Ainda não sei a resposta a esta pergunta. Ando perdido, nada para mim tem valor, não tenho nada. A única pessoa que me interessa, és tu, perdi-te, nada mais interessa. Bem pode haver guerras no mundo, terrorismo, extremismo, morte, aquecimento global, sismos, acidentes de viação. Deixou tudo de ter significado, não passam de imagens de um mundo em decadência, imagens que não me interessam. Posso culpar-te por estes sentimentos que desencadeaste em mim? Não, não posso, porque fui eu que cavei a minha cova e sou eu que devo subtilmente fechar o meu caixão e desaparecer da tua vida. Ás vezes penso que não te amo, mas te odeio irracionalmente, acabo sempre por chegar há conclusão que te quero odiar para ter uma desculpa para não te amar. Sempre que me tratas mal, não sinto ódio, sinto amor, e entristeço-me por ter provocado em ti sentimentos que te tenham incomodado. Mas o que são palavras? Reflexos da alma? Imagens daquilo que se sente e não se diz? Ou são simplesmente letras juntas que fazem sentido? Significarão estas palavras algo para além de mim? Para ti queria decerto que significasse, nem que fosse uma frase, uma palavra. Será que isso aconteceria se lesses isto? Tenho a certeza que não, pois conheço-te melhor a ti do que a mim. E é esse conhecimento que me mostra a verdade, essa terrível verdade que apenas há minha pessoa afecta. Sempre que te vejo o mundo detêm-se num momento singular de beleza, encanto, felicidade, amor…e dor e sofrimento e melancolia e fatalismo. Quando o meu olhar se cruza com o teu, destróis-me por dentro. Não consigo aguentar o teu olhar, altivo, acusador, belo, perfeito. Verei sempre no teu olhar aquilo que fiz e que me levou a perder a tua amizade. Nem que tivesse a certeza que me perdoaste, nunca me vou perdoar a mim mesmo o que te fiz. Gostava de poder esperar por uma absolvição, mas sei que essa absolvição nunca chegará. Talvez um dia entendas o que são estes sentimentos, se esse dia chegar, espero que lides com a dor, melhor do que eu. Pois espero que nunca sofras o que sofri e sofro por ti, um sofrimento que é tão ridículo como eterno. Ridículo porque hoje em dia, parece-me já não haver amor verdadeiro no mundo, apenas necessidades sexuais. Já não existe aquela forma de “sacrifício” pessoal para estar com quem supostamente se ama. Eu estou disposto a esses sacrifícios, bastava que mo pedisses, faria tudo o que mo pedisses. Tudo para ver-te sorrir uma vez mais, apenas para isso. Eterno porque a cada dia que passa, mais vejo o quanto te amo, Adoro observar-te, prender na memória todos aqueles pormenores que fazem de ti quem tu és, que me lembram todas as razões de eu te amar. Talvez um dia, eu tenha alguém, alguém que me ame. Mas essa pessoa nunca terá o meu amor, poderei quem sabe casar-me, e estarei a pensar que eras tu que gostava que estivesse ali comigo. E no fim talvez me pergunte, “valeu a pena?” Não sei responder a esta pergunta. Ainda estás a ler isto? Esta carta de um louco há mulher que ama, esta inútil agregação de palavras? Se leste até aqui a tua imagem de mim, não sei como ficou. Sei que o melhor sentimento que tens por mim é a indiferença, disso tenho a certeza. Depois só tenho a certeza de outra coisa na minha vida. Tenho a certeza que és a Mulher que amo.

P.S. – Se há algo que te possa pedir depois de tudo o que se passou, peço-te apenas que não respondas a esta carta com palavras ásperas e amargas. O silêncio por vezes vale mais que mil palavras.

Na noite que o sol brilhar
No mar fogo arderá
E então eternamente amar-me-ás

Comentário: Deambulava pelos meus textos quando encontrei esta carta que escrevi a alguem de quem gostei muito. Esta carta acaba sendo uma autêntica caixa de recordações, pois relembra-me esse ano de 2003 que na altura que escrevi esta carta o vi-a como um ano horrível. Um ano cheio de dor e maus sentimentos. Agora, cinco anos depois, vejo que foi um dos melhores anos da minha vida. Foi o ano em que conheci grandes amigos, o ano em que ia á pesca com o Ilho, que iamos quase 20 pessoas para a minha casa no Farol, o ano em que comecei a ir jantar ao Dragão Dourado com os melhores amigos que alguma vez tive, o ano em que provei a mim mesmo que com força de vontade o ser humano é capaz de muita coisa. Foi um ano de Magic the Gathering, de Dungeons & Dragons, do meu computador ultra-potente, foi o verão de jogar GTA: Vice City. Foi sem dúvida um grande ano...
A única má recordação que poderia ter é mesmo a pessoa a quem esta carta é dirigida. Agora que olho para trás, não há nada nesta rapariga que tenha que ver comigo, nada que nos pudesse unir. Somos pessoas completamente diferentes, ela é uma pessoa muito fria, o que é exactamente o oposto de mim. Não me arrependo do que escrevi nesta carta, não me arrependo de uma única palavra, pois sei que são o fruto de como então interpretava a realidade. Mas certamente, se fosse hoje, não lhe diria que a amava eternamente, pois felizmente, conheci nestes cinco anos muitas raparigas que me mostraram como essa rapariga nada tinha que haver comigo. Tambem se fosse hoje não me rebaixava tanto, porque agora entendo que não é nenhum pecado capital amar alguem, e amá-la, há luz do que hoje sou, foi certamente o único erro que cometi.

Sem comentários: