terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Destino

Lisboa, Sexta-Feira, 15 de Fevereiro de 2008. Por volta das 4 da tarde. O Sr. Joaquim sai do Hospital Curry Cabral dirigindo-se para o metro do Campo Pequeno. Está feliz. Todos os exames deram negativo. Mais 70 anos de vida disse o médico. Atravessa a Avenida 5 de Outubro, pelo meio dos carros engarrafadamente buzinantes. Vê uma jovem mulher muito atractiva, "já não tenho idade para isto", pensa. Chega ao Metro, do lado Oeste da Avenida Estados Unidos da América. Está fechado, para obras, aparentemente. Tem que atravessar esta mesma avenida para apanhar o comboio subterraneo do outro lado das 10 faixas de rodagem. Os carros correm de um lado para o outro num zumbido constante que se mistura com as vozes das milhares de pessoas que começam a sair do trabalho. Ouve-se ao longe uma ambulancia.

Chega á passadeira. Espera pacientemente que o homenzinho vermelho fique verde. Ele e tantas outras pessoas. O sol toca no topo dos edificios á sua frente dando-lhes uma coloração amarelo torrado. O boneco verde aparece. O Sr. Joaquim dá um passo, dois, três e até quatro. Por um segundo vê que está sozinho, ouve um suspiro atrás de si, no passeio. Vê algo a aproximar-se pelo canto do olho, algo massivamente mecanico. Ouve-se um imenso guinchar de pneus.

João, 23 anos de idade. Jovem empresário de sucesso. Comprou recentemente o carro dos seus sonhos, um Porshe 911. Está superficialmente feliz. Não é casado nem tem mulher, embora o considerem um homem super sexy. Não se quer prender a ninguem, não quer filhos. A sua empresa era do seu pai, que o colocou lá ainda com o 12º ano. Rapidamente subiu na escada social dentro da empresa e o há coisa de dois meses conseguiu finalmente dar o golpe do bau. Convencer a direcção a reformar antecipadamente o seu pai. Tornando-se ele próprio o dono da empresa. Dirige-se nesta tarde para a sua herdade no Alentejo, perto de Monsaraz, com vista para o lago artificial alqueviano. João não tem um única preocupação na vida. Segue no seu automóvel de luxo descendo a Avenida Estados Unidos da América em direcção ao Saldanha, apressado como sempre. Afinal de que serve um carro que dá 300 km/h se não o podemos usar. Segue sozinho na avenida, puxando o máximo pela sua máquina. O sinal está vermelho. Trava a fundo.

Joana, 18 anos, acabou de foder pela 4ª vez hoje, com o 4º rapaz diferente. Vai agora para casa, onde a mãe lhe prepararia um jantar, como todos os dias. Onde o pai discutiria futebol e politica durante toda a noite com ninguem, pois ninguem lá em casa toma muita atenção ao que ele diz, pelo menos ela não. Falta ás aulas e vende o corpo para comprar roupa. Não é a única, muitas amigas dela fazem o mesmo. "É uma boa fonte de rendimento" pensa ela sempre que se sente a pressão moral a tomar conta dela. Está alguns metros atrás de um velho, bem reparou como ele olhou para ela há alguns momentos atrás. Pensou quanto o velho lhe pagaria para uns momentos com ela. Pensa agora em dar-lhe um apalpão quando atravessarem a ver se o velho morde o isco. O velho avança. ela avança, os seus ouvidos completamente surdos ao som exterior pois ouve dance music no ipod que comprou com o dinheiro das quecas da semana passada. Não ouviu a derrapagem, apenas viu algo a aproximar-se do velho, algo a deter-se perto dela.

O Porshe 911 detem-se. Em frente a uma multidão de suspiros e gritos. João conseguira, travara a tempo, pensou. Embora tenha ouvido uma curta pancada. Viu o velho a cambalear, como um bebado. "Deviam exterminar estes mendigos todos" pensou, "não passam de bebados inuteis". Uma mulher gritou-lhe lá de fora "você atropelou!" João percebeu então o que tinha acontecido. Saiu do carro nervoso, em pânico.

O Sr. Joaquim sentiu-se a ser empurrado. Cambaleou em frente á multidão. Tentava manter-se em pé a todo o custo, agarrado á bengala. Via tudo a rodar. O som da ambulancia estava cada vez mais perto.

Joana correu para o velho, assustada com o que vira. Mas o Sr. Joaquim não parava, parecia impulsionado por uma força invisivel, bem para o meio do cruzamento. João correu para o agarrar. A ambulancia cada vez mais perto.

O Sr. Joaquim não sentiu o embate quando a ambulancia, que seguia prependicular ao Porshe de João embateu violentamente contra o idoso senhor. Teve morte instantanea. O seu corpo desfez-se em vários pedaços que foram projectos a algumas dezenas de metros. A sua bengala foi de tal maneira projectada que estilhaçou por completo a montra de uma loja ali da esquina. João e Joana foram apanhados por um chuva de carne e sangue. Os dentes falsos do Sr. Joaquim bateram violentamente contra os lábios da jovem puta. Algo em metal embateu contra João, caindo no chão. Mas ele não reparou o que era. A ambulancia deteve-se por entre gritos e pessoas a correr. Um policia correu para a situação de arma em punho, tremendo. Um jovem de cor correu para ele em pânico, disparou acidentalmente matando o jovem rapaz. O pânico instalou-se na avenida.

Os bombeiros sairam da ambulancia completamente em choque. "Fodass! Fodass!" gritava um cambaleando para o passeio, onde caiu desamparado "o que fiz eu?!". O policia dirigiu a pistola á cabeça e disparou em pânico, nervoso, inconsciente do que fazia.

Em todas as direcções corriam as pessoas em pânico, apenas João e Joana ali permaneciam imóveis cobertos de sangue, e carne. Joana tremia, caiu no chão chorando. João permanecia imóvel, olhou as suas mãos de onde o sangue escorria. No chão algo brilhava. Uma medalha de ouro, mergulhada no sangue. Era a medalha do Sr. Joaquim, que batera há pouco contra o peito de João violentamente. O Jovem empresário de sucesso apanhou-a. Tinha uma inscrição quase ilegivel, a custo conseguiu lê-la: "Honra o teu Pai". João desmanchou-se em lágrimas, ali ao lado daquela jovem desconhecida de nome Joana.

2 comentários:

XS disse...

Muito obrigada por me emocionares.

Anónimo disse...

Olá miúdo! I'm back :)
So...obrigada pelas mensagens...o eu blog continua excelente!

Já agora parabéns também para ti pela tua recém licenciatura, somos fuckin arqueólogos meu, vamos rebentar com o Fabi lolol