"Muito me agrada o alegre tempo da Páscoa
que faz chegar as folhas e as flores;
e agrada-me ouvir a alegria
das aves que fazem ressoar
os seus cantos pelo arvoredo.
Mas também me agrada quando vejo nos prados,
tendas e pavilhões levantados,
e sinto grande júbilo
quando vejo, alinhados nos campos,
cavaleiros e cavalos aparelhados;
e agrada-me quando os batedores
fazem fugir as gentes e gado;
e agrada-me quando vejo, atrás deles
uma grande massa de homens de armas que vêm juntos;
e o meu coração alegra-se
quando vejo fortes e castelos cercados
e as paliçadas destruídas e tombadas
e o exército na margem,
todo rodeado de fossos,
com uma linha de robustas estacas entrelaçadas...
Clavas, espadas, elmos de cores,
escudos, vê-los-emos feitos em pedaços
desde o começo do combate
e muitos vassalos feridos juntamente,
por onde andarão à aventura os cavalos dos mortos e feridos.
E quando entrar no combate,
que cada homem de boa linhagem
não pense senão em partir cabeças e braços;
pois mais vale morto do que vivo e vencido.
Digo-vos, já não encontro tanto sabor
no comer, no beber, no dormir
como quando oiço o grito "Avante!"
elevar-se dos dois lados, o relinchar dos cavalos sem cavaleiros na sombra
e os brados "Socorro" Socorro!";
quando vejo cair, para lá dos fossos, grandes e pequenos na erva;
quando vejo, enfim, os mortos que, nas entrenhas,
têm ainda cravados os restos das lanças, com as suas flâmulas."
Bertrand de Born, séc. XII d.C.
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