domingo, 28 de fevereiro de 2010

O barco

Navegas a todo o vapor, cavalgando as ondas daquele mar de primavera. Não te detens, viras a proa em direcção a terra. Parece-te só uma linha no horizonte, mas é para lá que te diriges. Os motores a toda a brida, das chaminés o negro fumo expelido constantemente, aquela linha está mais próxima. És um sonhador. Sonhas com terra, com os campos verdes, as flores, as montanhas, as planicies, as cidades que nunca viste os locais que nunca nenhum barco ousou imaginar visitar. Mas tu queres lá ir e tens toda a certeza que vais conseguir caminhar em terra, basta-te, pensas tu, acelerar o máximo que conseguires, pois estás convicto que vais conseguir navegar em terra. Estás muito próximo. O barulho dos teus motores ecoa pela praia. Apitas de contentamento o teu sonho vai concretizar-se, tens a certeza! Serás o primeiro barco a precorrer a terra, a ver os montes, os vales, as selvas, as florestas e depois voltarás para contar a história da tua aventura aos outros barcos que te admirarão pelo impossível que foste.


Sentes-te bater no fundo, perdes um pouco de velocidade mas não desanimas continuas em frente com o teu casco a desenhar o fundo do mar. Continuas. Sentes as tuas hélices a cravarem-se na areia espalhando e destruindo o desenho que inconscientemente fizeste há pouco. Estás na rebentação, e continuas a acelerar ao máximo, o terreno sobe em direcção á praia e ás dunas e tu aceleras ainda mais. Mas a tua proa não sobe, não caminha sobre a terra e enterra-se na areia molhada sem se elevar um milimetro que seja. Estás tão cego com a tua ambição que continuas a acelerar pequeno barco, não reparas que cada vez perdes mais velocidade embora puxes pelos teus motores ao máximo! O som é ensurdecedor, a imagem abismal, um barco completamente encalhado, o seu casco enterrado largos metros na areia, as hélices ainda meio dentro de água a funcionarem a todo o vapor, o som dos motores mistura-se com o suave som das ondas a partirem e com os sons da buzina do barco que grita de frustração por não se mover. As hélices param finalmente, queimaste os teus motores de tanto puxares por eles. Tentas mexer-te para dentro de água mas estás completamente preso. Olhas em frente, vês as montanhas ao longe, e percebes finalmente que nunca as irás ver de perto. Olhas para o mar e queres voltar, queres voltar a ser o que eras dentro de água mas não consegues sair da praia. Estás preso entre o mar e a terra, entre o que foste e o que querias ser. E ai ficarás até ao fim da tua existência, sendo consumido lentamente pelo areal até não passares de uma amalgama de metal corruído.


Moral da história? Talvez não devamos querer ser mais do que aquilo que já somos, pois por vezes temos muito mas não lhe damos a importância devida. E essa inconsciência faz-nos procurar mais e mais daquilo que não podemos ter mas que sonhamos conseguir. E quando conseguimos ter, voltamos ao inicio e a desejar outra qualquer coisa que nos satisfaça o ego. Até que um dia, tudo perdemos e ficamos sem nada, encalhados numa praia.


1 comentário:

Carlos disse...

Acabamos por ser consumidos por tudo que temos. Um belo texto.