quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Jorge, Parte II

Ao longe apenas se viam duas linhas de pó a serem levantadas e quem lá estivesse perto não teria visto nada do que se passou no meio daquela nuvem de cinzas. O cavaleiro preparava-se para espetar a espada numa das patas dianteiras do dragão, mas cada vez que estas tocavam no chão uma nuvem de cinzas levantava-se dificultando a visão do humano. Viu a pata esquerda do dragão á sua frente a levantar mais uma nuvem de cinza e preparou-se para atacar a pata direita que se seguiria. No entanto, esta pasta não tocou no chão, do meio das cinzas a palma da pata dianteira direita da besta surgiu, e num ápice o cavaleiro só teve tempo de se deitar completamente sobre o dorso do cavalo. Levantou-se, a tempo de ver a pata dianteira esquerda do dragão a investir sobre ele. Puxou as rédeas do cavalo para a esquerda com todas as suas forças desviando a ele próprio e ao cavalo de serem esmagados. O cavalo fugia relinchando, assustado no meio das cinzas, do pó e dos rugidos do dragão. Fugia passando debaixo da barriga do dragão. Num impeto, o cavaleiro atingiu a barriga do dragão com todas as suas forças. Galopou em frente, em direcção á cauda do dragão sempre segurando a espada com duas mãos, sustendo-se em cima da sua montada pelos estribos.

Seguiu em frente, via agora toda a extensão da cauda do dragão. Desde o tronco gigante do dragão até á sua ponta chicoteante. Desviou-se para longe do dragão. Esperava que a besta desfalece-se com o golpe que desferira na sua barriga. Galopava o cavalo para longe enquanto o cavaleiro olhava para trás. No meio das cinzas, distinguiu um enorme vulto, ainda sobre as suas quatro patas. Uma brisa dissipou o rosto do dragão. Olhava impiedoso para o pequeno humano. Este, distraiu-se impressionado com a certeza de o dragão ainda estar vivo. Era só isto que o lagarto gigante precisava.

Pelo canto do olho, numa fracção de segundos o cavaleiro viu algo, antes de ser projectado no ar. Ouviu o seu cavalo relinchar aflito com algo. Mas nada podia fazer, sentia-se rodopiar no ar. Até atingir fortemente o chão, rebolou alguns metros antes de perder a força com que fora projectado. Sentia-se dorido, mas ainda tinha na mente a pergunta que o distraira. Como teria o dragão escapado do seu golpe? Ergueu-se a custo, procurando a sua espada. Olhou a lamina, estava partida, danificada como se o cavaleiro tivesse investido contra uma pedra durante dias a fio. Ouvia pelo meio do vento o relinchar do seu cavalo. Olhou em volta procurando a sua montada. Mas os seus olhos encontraram primeiro os do dragão que simplesmente observava o pequeno ser. Divertia-se vendo aquele humano a tentar derrotá-lo.

O cavaleiro encontrou o cavalo, tentava levantar-se mas tinha parte da armadura cravada na barriga. A armadura estava bastante amolgada, pois fora ali que o dragão havia os atingido. Pela rapidez do ataque o cavaleiro deduziu que este atacara com a cauda, como um chicote gigante. O cavalo sofria, relinchava com a dor, com o desespero. Jorge tirou o elmo, os seus longos cabelos negros caíram livremente sobre os ombros. A sua pele branca constrastava com a barba negra de vários dias de caminho sem uma boa estalagem para descansar. Olhou o cavalo nos olhos e sussurrou “calma amigo”. O cavalo entendia-o perfeitamente, haviam lutado juntos durante muitas luas. Sabia ler os pensamentos do seu dono. Sabia então que iria sofrer bastante nos próximos segundos. Jorge arrancou o pedaço de metal da carne do animal. Este relinchou e estrebunhou com a dor. Mas Jorge sabia o que fazer, rapidamente estancou a ferida. Sem aquela chapa de metal o cavalo conseguiria erguer-se novamente, mas não poderia continuar o combate. Forçou o cavalo a levantar-se, embora este relinchasse com as dores. Este quase não se conseguia manter em pé. Lentamente, Jorge retirou toda a armadura ao cavalo. “Sai Daqui”, disse-lhe sussurrando. Lentamente o cavalo seguiu para longe da batalha, coxeando.

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